A engenharia e a foto numérica


A ENGENHARIA DO FOTÓGRAFO OU VICE-VERSA

A tecnologia digital na velocidade e astúcia do processamento da informação, me provocou espanto no fim século passado em 1999 quando experimentei pela primeira vez uma máquina digital SONY* que gravava fotografia em disquete. Este encontro aconteceu numa loja de departamentos chamada FNAC (o curioso nome é uma sigla que significa Fédération Nationale des Associations des Cadres) ou seja, uma associação de compradores que atuavam em fotografia. FNAC chegou ao Brasil justamente em maio de 1999, quatro anos depois que eu tinha migrado da eletrônica digital para a arte de tocar discos como se deve, com a musicalidade das cordas como se deve, das madeiras e das vozes femininas como se deve. Foi justamente em 1995 que baixou em mim o espírito do "mago do som”. Me transformei desde então em fabricante de caixas acústicas, tal como me conhecem até hoje. A magia continua enquanto o som do dinheiro toca nos ouvidos da Amazon que também vende cuecas e sapatos sem magia alguma. Hoje sou chamado para preparar poções mágicas para poucos amigos que se sensibilizam por boa música e que também tem magia na alma e no coração.

Porque este preâmbulo? Qual o paralelo com fotografia?
Me explico. Em 2015, quer dizer recentemente, fui convidado a palestrar numa universidade em Paris onde o tema era a metamorfose na forma de ouvir música. Tendência diziam todos. Por conta da tecnologia emergente feito um iceberg, a profecia aconteceu para dar vida curta ao mundo da mídia física, em detrimento do mundo do acesso virtual. A música foi para as nuvens com o papo furado da compressão ou da alta resolução, e doravante vale tudo para ouvir Mozart ou Bob Dylan enquanto se pedala, por exemplo. A fabricação das caixas acústicas foi para poucos jogadores, gente da pesada, sem amor ou magia, que me fizeram observador ou apenas coordenador.

Photo Quad tem relação com Phono Graph?
Claro que sim. O paralelo? Ora, a Fotografia, (grafia da luz) e a Fonografia, (grafia do som), migram com a mesma lógica dos números. O resultado final (cinema à parte, por favor) é a desmaterialização. A informação traçada fisicamente é substituída por informação codificada, invisível e intangível. Ontem me maginava bem servido com uma Olympus XA-2** e com outra Rollei B35, ambas fabulosas máquinas fotográficas, hoje não mais.

E foi assim que as mídias foram morar nos armários, sebos e museus. Restos mortais das mídias físicas estão também desaparecendo com suas estéticas e identidades próprias que se tornarão raridade. A raridade em fotografia impressa não precisa ser definitiva. Tal como o amor a ausência do amado, existem outras formas de amor. Pra que sofrer?

Com Photo Quad (o enquadramento da luz) procuro realizar e festejar o objeto capturado, enquadrado e engaiolado por amor. Um outro amor... O amor da perpetuação de um momento roubado pelo olhar romântico, esperto ou maroto.

Como dizia Ringo em 1967, I will try with a little help from my friend.

Sami Douek
Em 4 de maio de 2020

* e ** estão nas ilustrações desta página